A Influência Africana nos Membranofones da Amazônia: O Tambor Curimbó e a Alma do Carimbó

Tambores afro e amazônia
Introdução
A paisagem sonora da Amazônia é um complexo mosaico de influências, onde os sons da floresta se entrelaçam com as tradições musicais dos povos originários e as heranças culturais trazidas por colonizadores e africanos escravizados. Entre os instrumentos que definem a identidade rítmica da região, os membranofones — tambores que produzem som através da vibração de uma pele esticada — ocupam um lugar de destaque. Este relatório explora a origem e a influência africana nesses instrumentos na Amazônia, com um foco particular no tambor curimbó e sua indissociável ligação com o carimbó, manifestação cultural que é a alma do povo paraense. Adicionalmente, aborda-se a questão da ausência de membranofones nas culturas indígenas amazônicas antes do contato com europeus e africanos, a filiação do carimbó a outras tradições percussivas como o gambá, e as primeiras menções históricas ao termo.
A Ausência de Membranofones Indígenas e a Chegada dos Tambores Africanos
Estudos etnomusicológicos e arqueológicos indicam que, antes da chegada de europeus e africanos, os instrumentos musicais predominantes entre os povos indígenas da Amazônia eram os idiofones (chocalhos, bastões de ritmo) e aerofones (flautas, buzinas) [7]. A análise de acervos arqueológicos e fontes coloniais, como as relacionadas aos Tupinambá e Tapajó, não revela a presença de membranofones, sugerindo que esta classe de instrumentos não fazia parte do universo sonoro ameríndio pré-colonial [8].
A influência de posicionamentos que consideram este instrumento como “não autóctone”, “de introdução europeia ou africana” (Camêu, 1977, p. 223), pode ser outro motivo para o parco interesse no tambor indígena. [5]
É nesse contexto que a introdução dos tambores africanos se torna um marco transformador.
A Presença Africana na Amazônia e a Gênese dos Tambores
A introdução de populações africanas na Amazônia colonial, principalmente a partir dos séculos XVII e XVIII, foi um processo diretamente ligado à demanda por mão de obra para as lavouras e outras atividades econômicas. O tráfico de escravizados para o então Estado do Maranhão e Grão-Pará, embora com características distintas do tráfico para outras regiões do Brasil, foi fundamental para a composição demográfica e cultural da Amazônia [1].
Esses africanos, oriundos de diversas etnias e regiões, trouxeram consigo um vasto repertório cultural, incluindo suas práticas musicais e a tecnologia de construção de instrumentos. Em um ambiente de opressão, a música e a dança tornaram-se formas potentes de resistência, celebração e conexão com a ancestralidade. Os tambores, em particular, eram centrais nessas práticas, servindo não apenas como instrumentos musicais, mas como veículos de comunicação, expressão religiosa e coesão social.
Na Amazônia, essa herança africana encontrou um terreno fértil, dialogando e fundindo-se com as tradições dos povos indígenas locais. O resultado foi a criação de novas formas de expressão cultural, marcadamente híbridas, como o Tambor de Mina no Maranhão e Pará, o Tambor de Gambá no Amazonas, e, de forma emblemática, o carimbó no Pará. O carimbó, inclusive, é apontado por pesquisadores como tendo no gambá um de seus “pais”, indicando uma filiação e ancestralidade comum entre essas manifestações percussivas da Amazônia [9].
O Tambor Curimbó: Coração do Carimbó
O carimbó, hoje reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, é uma manifestação que integra dança e música, e sua própria identidade é definida pelo som de seu principal instrumento: o curimbó. A palavra “carimbó” é, na verdade, uma derivação do termo em Tupi, korimbó, que significa “pau oco que produz som” (kori, pau oco + m’bó, furado) [4, 5].
Características
Tradicionalmente feito de um tronco de árvore maciço (como cedro ou mogno), escavado para se tornar oco.
Uma das extremidades é coberta com uma pele de animal, geralmente de boi ou veado, que é esticada e presa com cunhas de madeira.
A tensão da pele, e consequentemente o timbre do tambor, é ajustada de forma rústica, muitas vezes aquecendo a pele perto de uma fogueira.
O músico, chamado de “tocador” ou “carimbozeiro”, senta-se sobre o tronco do tambor, que fica deitado no chão, e percute a pele diretamente com as mãos, sem o uso de baquetas.
Essa técnica de tocar sentado sobre o instrumento e a própria construção do tambor de tronco único são características compartilhadas com diversos membranofones da África Ocidental e Central, regiões de origem de muitos dos africanos trazidos para a Amazônia [1].
O equívoco replicado da origem indígena
O registro do Padre João Daniel em sua obra do século XVIII (1767), “Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas”, oferece o primeiro e mais detalhado relato sobre o uso de membranofones (tambores) pelos Tupinambás na Amazônia colonial. Ele descreve instrumentos feitos de “madeiras ocas”, que eram “modelados com fogo” e tocados pelos mais velhos “assentados e com ambas as mãos”. Este contexto histórico é crucial, pois documenta, em uma fonte primária, as práticas musicais que já estavam consolidadas na região muito antes das análises etnográficas modernas, fornecendo uma janela única para a tecnologia e a performance percussiva da época.
A conclusão inequívoca, a partir da análise do texto de Daniel, é que as técnicas de construção e execução dos tambores Tupinambá são de origem africana, e não indígena. A menção a tambores “modelados com fogo” aponta diretamente para a tecnologia ancestral africana de afinação por aquecimento, enquanto a postura de tocar “assentado” (sentado sobre o instrumento) é uma característica performática documentada em diversas culturas da África Ocidental. Portanto, o relato do padre jesuíta não apenas confirma a presença de membranofones na Amazônia, mas estabelece que sua tecnologia e seu modo de uso foram introduzidos por africanos, formando a base para o desenvolvimento de instrumentos como o curimbó.
O uso da referência do carimbó como de origem “puramente indígena” representa um equívoco histórico que ignora as evidências tecnológicas e performáticas documentadas desde o século XVIII. Essa interpretação geralmente se baseia apenas na etimologia do nome “curimbó” (do Tupi, “pau oco que produz som”), desconsiderando que a construção, a afinação e a maneira de tocar o instrumento são heranças diretas da diáspora africana. O texto de João Daniel é a prova documental que corrige essa visão, demonstrando que o curimbó é, na verdade, um símbolo poderoso da fusão cultural afro-indígena, onde o nome pode ter uma raiz local, mas a alma, a técnica e a sonoridade do tambor têm suas raízes fincadas na África.
Ademais, a primeira referência bibliográfica que associa diretamente o nome “carimbó” ao instrumento e à prática é encontrada no “Glossário Paraense” de Vicente Chermont de Miranda, publicado em 1906, que o descreve como um “atabaque, tambor, provavelmente de origem africana” [6].
Carimbó: De “Festa de Preto” a Símbolo Nacional
A história do carimbó é também uma história de resistência. Por sua forte associação com a cultura negra e indígena, a manifestação foi por muito tempo marginalizada e reprimida, sendo classificada pejorativamente como “festa de preto” e até mesmo criminalizada pelo Código de Posturas de Belém em 1880 [4].
“É proibido, sob pena de trinta mil reis de multa: (…) Fazer bulhas, vozerias e dar autos gritos (…). Fazer batuques ou samba. (…) Tocar tambor, carimbó, ou qualquer outro instrumento que pertube o sossego durante a noite, etc.” [4]
Apesar da repressão, o carimbó sobreviveu nos terreiros, nas comunidades ribeirinhas e quilombolas do Pará, especialmente na região do Salgado. A partir da década de 1960, o ritmo ganhou visibilidade, foi gravado por artistas como Mestre Verequete e Pinduca, e iniciou um processo de reconhecimento que culminou em sua consagração como patrimônio cultural brasileiro em 2014 [4, 5].
IPHAN e Carimbó
Para além do histórico, a análise técnica musical reforça a origem afro dos ritmos tradicionais amazônicos. No dossiê Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) encontramos o seguinte:
As principais características rítmicas do carimbó são comuns às muitas tradições musicais de ascendência africana. Dentre tais características, tem-se as células rítmicas sincopadas, o contraponto (polirritmia) e a preponderância dos tambores.
Segundo Andrey Lima (2014), o entremear percussivo e sincopado dos instrumentos representa um dos elementos mais facilmente verificáveis no que compete à influência africana na musicalidade latina e caribenha, o que inclui o carimbó:
Expressões musicais de notada origem ou contribuição africana, como o maracatu, o tambor de crioula, o jongo e o próprio samba, trazem consigo esta fundamental característica. Igualmente, demais
expressões como o marabaixo, o samba de cacete e o carimbó,
associadas à presença africana na Amazônia, não deixam também de apresentar contornos semelhantes, dentro do que o notório folclorista Vicente Salles chamou de “variantes do batuque”. (LIMA, 2013.
p.107)
Isso está na mais importante e direta publicação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional sobre o Carimbó [2], fonte portanto qualificadíssima e sem refutação em nível leigo.
Conclusão
A origem dos membranofones na Amazônia é um testemunho da complexa interação entre as culturas indígena e africana. O tambor curimbó é o exemplo mais eloquente dessa fusão: um instrumento com nome indígena, mas cuja técnica de construção e execução carrega a inconfundível marca da diáspora africana. Ele não é apenas um objeto que produz som; é o coração pulsante do carimbó, um ritmo que conta a história de um povo, sua resiliência e a riqueza de sua herança afro-indígena. Ao soar pelas terras amazônicas, o curimbó reafirma a importância da contribuição africana para a identidade cultural do Brasil.
Referências
[1] Chambouleyron, R. (2006). Escravos do Atlântico equatorial: tráfico negreiro para o Estado do Maranhão e Pará (século XVII e início do século XVIII). Revista Brasileira de História. Acessado em https://www.scielo.br/j/rbh/a/hT5MH7wqWvyKthr5CnTGdQS/
[2] IPHAN. Dossiê de Registro do Carimbó. Acessado em http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossiê%20de%20Registro%20Carimb%C3%B3(1).pdf
[4] Wikipédia. Carimbó. Acessado em https://pt.wikipedia.org/wiki/Carimbó
[5] Camarinha, H. M., Garcés, C. L. L., & Alves, R. (2020). O tambor Ka’apor e o percutir de outros povos: estudo introdutório sobre o membranofone em contextos indígenas. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas. Acessado em https://www.scielo.br/j/bgoeldi/a/9KZfZHNbnBFQhjsDGdhnQvt/?lang=pt
[6] Wikipédia. Curimbó (instrumento). Acessado em https://pt.wikipedia.org/wiki/Curimbó_(instrumento)
[7] Izikowitz, K. G. (1935). Musical and other sound instruments of the South American Indians: a comparative ethnographical study. Göteborg.
[8] Barros, L. C. S., Silveira, M. I., Severiano, R., & Gomes, L. S. (2015). Música ameríndia no Brasil pré-colonial: uma aproximação com os casos dos Tupinambá e Tapajó. Opus, 21(2), 133-166. Acessado em https://www.academia.edu/21065374/M%C3%BAsica_amer%C3%ADndia_no_Brasil_pr%C3%A9_colonial_uma_aproxima%C3%A7%C3%A3o_com_os_casos_dos_Tupinamb%C3%A1_e_Tapaj%C3%B3
[9] RFI. (2022). Carimbó: ritmo de herança afro-indígena é tradição no Pará. Acessado em https://www.rfi.fr/br/podcasts/rendez-vous-cultural/20220114-carimb%C3%B3-ritmo-de-heran%C3%A7a-afro-ind%C3%ADgena-%C3%A9-tradi%C3%A7%C3%A3o-no-par%C3%A1