24 de abril de 2026

Indícios da Presença Negra na Amazônia Colonial Antes de 1740

Presença negra na Amazônia colonial
Ilustração (IA) Blogdojuarez

A presença negra na Amazônia colonial, especialmente no século XVII, injustamente negada pelo senso comum, merece ser melhor divulgada.

A historiografia tradicional sobre a Amazônia colonial frequentemente privilegiou a narrativa da exploração da mão de obra indígena, relegando a presença africana a um plano secundário ou a períodos posteriores, como a segunda metade do século XVIII com a criação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755). No entanto, pesquisas recentes, baseadas em documentação arquivística e evidências arqueológicas, demonstram que a presença negra na região amazônica remonta ao século XVII e se consolidou nas primeiras décadas do século XVIII, muito antes de 1740 [1] [2].

Este texto sintetiza os principais indícios históricos, documentais e arqueológicos que comprovam a presença, o trabalho e a resistência de africanos escravizados na Amazônia colonial antes de 1740 (data fixada pela costumeira negação de presença negra na região no período, por má interpretação do texto do jesuíta João Daniel, “O Tesouro descoberto no Máximo Rio Amazonas”, ao tratar sobre os Tupinambás e instrumentos musicais como o “curimbó”), destacando as rotas de tráfico, a formação de mocambos e a inserção dessa população na economia local.

O Contexto Econômico e a Necessidade de Mão de Obra

A economia da Amazônia colonial, especialmente no Estado do Maranhão e Grão-Pará, baseava-se fundamentalmente na extração das chamadas “drogas do sertão” (especiarias, plantas medicinais, cacau, cravo, entre outros) e na agricultura incipiente [3]. Inicialmente, essa economia dependia quase exclusivamente do trabalho indígena escravizado ou submetido a regimes de servidão.

Contudo, a transição para o século XVIII trouxe desafios significativos para esse modelo. As constantes epidemias, como os surtos de bexigas (varíola) que dizimaram milhares de indígenas, especialmente na década de 1740, e a resistência das populações nativas forçaram as autoridades coloniais e os colonos a buscarem alternativas de mão de obra [4]. É nesse contexto de crise demográfica indígena e de disputas políticas sobre a liberdade dos nativos que a importação de africanos escravizados começou a se intensificar, estabelecendo as bases para um tráfico negreiro regular para a região [5].

 

Presença negra na Amazônia Colonial

Rotas do Tráfico Negreiro e o Porto de Belém

Embora o grande fluxo de africanos para a Amazônia tenha ocorrido após 1755, os indícios apontam para um comércio escravo estabelecido desde o final do século XVII. As rotas negreiras conectavam os portos da costa africana (especialmente da Alta Guiné e, posteriormente, de Angola) diretamente ao Estado do Maranhão e Grão-Pará [6].

O porto de Belém, especificamente a área do Ver-o-Peso, consolidou-se como o principal ponto de desembarque e comercialização de africanos escravizados na região. Documentos alfandegários e registros comerciais da primeira metade do século XVIII atestam a chegada regular de navios negreiros [7]. Um aspecto peculiar desse tráfico era a utilização de africanos escravizados como marinheiros (grumetes) nas próprias embarcações que faziam a travessia atlântica, demonstrando uma inserção complexa dessa população nas dinâmicas marítimas e comerciais da época [8].

“Na primeira metade do século XVIII o tráfico transatlântico e a rota negreira tornaram-se características que diferenciaram o comércio de escravos para a Amazônia. Os escravizados desembarcavam no mercado do Ver-o-Peso em Belém, que se tornou um importante porto de recebimento.” [9]

Trabalho e Inserção Social

Os africanos escravizados que chegavam à Amazônia antes de 1740 não eram destinados apenas ao trabalho agrícola pesado. A documentação histórica revela uma diversidade de ocupações que inseriam essa população em diferentes esferas da sociedade colonial:

1. Trabalho Urbano e Doméstico: Em Belém, muitos escravizados atuavam como trabalhadores domésticos, de ganho (vendendo produtos nas ruas) ou de aluguel. Essa dinâmica urbana permitia uma maior circulação e interação social, muitas vezes dividindo espaços com indígenas e colonos pobres [10].
2. Trabalho Especializado: Africanos eram frequentemente empregados em funções que exigiam conhecimentos técnicos, como em fábricas de madeira, na construção naval e como marinheiros nas frotas fluviais e marítimas [11].
3. Trabalho Rural: Nas fazendas e engenhos do interior do Grão-Pará, africanos e indígenas frequentemente trabalhavam lado a lado, compartilhando as agruras da escravidão e, muitas vezes, forjando alianças de resistência [12].

Resistência: Fugas, Mocambos e Insolências

A presença negra na Amazônia colonial foi marcada, desde o início, por intensa resistência. A historiografia recente tem resgatado inúmeros registros de “insolências” (atos de rebeldia e desobediência contra senhores e autoridades) e, principalmente, de fugas e formação de mocambos (comunidades de fugitivos) [13].

As fugas eram uma realidade constante no Grão-Pará e Maranhão entre 1707 e 1750. Os escravizados aproveitavam a vasta rede hidrográfica e a densa floresta para escapar do cativeiro. As autoridades coloniais, preocupadas com a proliferação dessas comunidades, organizavam frequentemente “diligências” (expedições militares) encarregadas de destruir os mocambos e recapturar os fugitivos [14].

A região do Baixo Amazonas, incluindo áreas como Santarém, Óbidos e o rio Trombetas, tornou-se um refúgio histórico para essas populações. Embora muitos dos grandes quilombos do Trombetas tenham se consolidado no século XIX, suas raízes remontam às fugas e à formação de mocambos no período colonial [15]. É notável que, nessas áreas de refúgio, africanos fugitivos frequentemente interagiam com populações indígenas, trocando conhecimentos sobre sobrevivência na floresta, práticas agrícolas e estratégias de defesa [16].

Evidências Arqueológicas

Além da documentação escrita, a arqueologia tem fornecido provas materiais contundentes da presença africana na Amazônia colonial. Pesquisas realizadas no Sítio Aldeia, localizado na área urbana de Santarém (Pará), revelaram fluxos de materiais que atestam a presença de africanos escravizados na região durante os séculos XVIII e XIX [17].

A análise da cultura material, especialmente da cerâmica utilitária, demonstra escolhas tecnológicas e decorações plásticas que remetem a tradições africanas. A presença de vasilhames específicos, associados a práticas cotidianas e rituais, evidencia não apenas a presença física, mas também a manutenção e adaptação de identidades culturais africanas no contexto da diáspora amazônica [18]. Essas descobertas arqueológicas desafiam a narrativa de uma Amazônia colonial exclusivamente indígena e luso-brasileira, confirmando a complexidade e a diversidade étnica da região desde os primórdios da colonização.

No Amazonas

A presença negra na Amazônia colonial, na capitania do Rio Negro, atual território do Amazonas e estados desdobrados, também ocorreu.

Um trabalho que trata magistralmente o tema é a dissertação de mestrado de KÉZIA WANDRESSA DA C. LIMA, A presença negra na Capitania do Rio Negro na Amazônia Colonial”. 2018, pelo PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIEDADE E FRONTEIRAS – UFRR.

Muito útil para ajudar na desconstrunção da tradicional negação ou minoração da presença negra no Amazonas e Amazônia.

Conclusão

Os indícios históricos, documentais e arqueológicos convergem para uma conclusão inegável: a presença negra na região amazônica antes de 1740 foi significativa, estrutural e marcada por intensa agência. Longe de serem atores passivos ou numericamente irrelevantes, os africanos escravizados participaram ativamente da economia colonial, moldaram as dinâmicas urbanas e rurais, e construíram redes complexas de resistência através de fugas e da formação de mocambos. Reconhecer essa presença é fundamental para uma compreensão mais profunda e plural da história da Amazônia, rompendo com silenciamentos historiográficos e valorizando a contribuição fundamental das populações negras na formação social e cultural da região.

Nota de transparência: Artigo produzido com assistência de Inteligência Artificial (Manus AI) com argumento, verificação, edição e complementação humanas pelo autor que assina, Juarez Silva Junior.

 

Referências

[1] Barbosa, B. C. C. (2014). Africanos na Amazônia Colonial: notas sobre fugas, mocambos e insolências nas terras do Grão-Pará e Maranhão (1707-1750). Revista Transversos.
[2] Chambouleyron, R. (2006). Escravos do Atlântico equatorial: tráfico negreiro para o Estado do Maranhão e Pará (século XVII e início do século XVIII). Revista Brasileira de História.
[3] Chambouleyron, R. (2023). As drogas do sertão e a Amazônia colonial portuguesa. Repositório da Universidade de Lisboa.
[4] Barbosa, B. C. C. (2009). Em outras margens do Atlântico: tráfico negreiro para o Estado do Maranhão e Grão-Pará (1707-1750). Dissertação de Mestrado, UFPA.
[5] Silva, M. A. S. (2015). O tráfico de africanos na Amazônia colonial: abordagens historiográficas. Revista Margens.
[6] Silva, M. C. G. (2010). Rotas negreiras e comércio de africanos para o Maranhão colonial, 1755-1800.
[7] Silva, M. A. S. (2020). Nas correntes do Atlântico Norte e Sul: tráfico de escravizados para Belém do Grão-Pará (1777-1841). Tese de Doutorado, UFPA.
[8] Silva, M. A. S., & Jacinto, C. P. S. (2022). Trabalhando nos mares: marinheiras e marinheiros africanos nos navios da Companhia de Comércio do Grão Pará e Maranhão. Revista Maracanan.
[9] Parecer Técnico do Memorial da Escravidão no Pará (2024). SEIRDH.
[10] Silva, M. A. S., & Barbosa, B. C. C. (2020). La “ciudad ennegrecida”: esclavos en el Belém do Grão-Pará colonial. Revista de Estudios Brasileños.
[11] Batista, R. C. C. (2020). Escravidão de africanos e fabricação de madeiras no Grão-Pará na segunda metade do século XVIII. Revista da ABPN.
[12] Conceição, A. L. B. (2025). Uma análise das diferenças internas entre escravizados nas freguesias do Grão-Pará na segunda metade do século XVIII (1774-1776). UFPA.
[13] Gomes, F. S. (1996). Em torno dos bumerangues: outras histórias de mocambos na Amazônia colonial. Revista USP.
[14] Silva, D. J. S., & Silva, S. K. F. (2021). Escravidão, mocambos, fugas e a legislação escravista no Grão-Pará do século XIX: um estudo de sociologia histórica. Revista Temporis[ação].
[15] Funes, E. (2015). Sociedades quilombolas na Amazônia brasileira.
[16] Marin, R. E. A. (2003). Tráfico de indígenas, fugitivos e fronteiras no Grão-Pará e Guiana Francesa (Séculos XVII e XVIII). Revista de História.
[17] Muniz, T. S. A. (2019). Materiais e fluxos na Amazônia Colonial: evidências da presença de africanos escravizados no Sítio Aldeia (Santarém, Pará). Revista de Arqueologia.
[18] Muniz, T. S. A., & Gomes, D. M. C. (2017). Identidades materializadas na Amazônia Colonial: a cerâmica dos séculos XVIII e XIX do sítio Aldeia, Santarém, PA. Vestígios – Revista Latino-Americana de Arqueologia Histórica.

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