PRETOS+PARDOS: Breve histórico e construção acadêmica da população negra

Fiz este excerto do texto de 2019 de SZWAKO (Cientista Social) e LAVALLE (Cientista Político). É um trecho pequeno mas dá ideia de como ACADEMICAMENTE surgiu parte, e repito, parte, da ideia de pretos+pardos enquanto população única, a NEGRA, outros autores e autoras colaboram decisivamente para a constatação. Não estão consideradas na análise outras considerações como abordagem histórica da escravidão indígena, tráfico negreiro transatlântico e escravidão negroafricana, agrupamentos pretos e pardos na época colonial e imperial, ou movimentos negros no XX e XXI.
“No primeiro censo levado a cabo no Brasil, em 1872, conviveram duas formas de classificação, uma propriamente racial e outra social-legal. Enquanto o quesito “raça” dividia a população entre “pardos”, “pretos”, “brancos” e “caboclos”, era o critério “condição civil” – deslindando os tipos “livre”, “escravo” e “liberto” – que mais pesava nas preocupações de organização e análise dos dados daquele censo (Oliveira, 2003). [..] Já no advento da Primeira República, a opção “mestiço” substitui no censo de 1890 (e somente nele) o elemento “pardo” na classificação racial oficial, “assumindo o sentido atribuído pelo [projeto de] branqueamento, qual seja, o de diluição do sangue negro no cruzamento com os contingentes migratórios” (Camargo, 2009, p. 369-370). [..] o conjunto dos dados oficiais extraído dos recenseamentos tiveram, a partir do final da década de 1970, tratamento científico sui generis nas mãos de Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silva. Ao contrário de gerações de pesquisas anteriores, para as quais as dinâmicas de preconceito e discriminação raciais eram resiliências do passado, esse par de autores, juntos ou separadamente, entendia que “[a] raça, como atributo social e historicamente elaborado, continua a funcionar (…) na distribuição de pessoas na hierarquia social (Hasenbalg, 1982, p. 89-90). E mais: baseados em dados censitários, Hasenbalg e Silva chegaram à conclusão de que “pretos” e “pardos” compõem, em termos estatísticos, um grupo “um tanto quanto homogêneo” (Silva, 1978, p. 215) relativamente às desigualdades e chances de mobilidade, controladas as variáveis como ocupação, renda e instrução. Esse grupo estatístico foi por eles caracterizado como população “não branca” – “constituída por pretos e pardos, na denominação dos censos demográficos e da PNAD”i (Hasenbalg, 1982, p. 92). Colocando tal operação cognitiva em ação, lançavam nova luz sobre as desigualdades raciais e destacavam o “abismo” (Daflon, 2017, p. 67), em termos socioeconômicos,ii entre não brancos e brancos. Essa classificação consagrou-se no país, de modo que “praticamente todas as pesquisas sobre raça e mobilidade social no Brasil mantiveram tal estratégia metodológica, agregando ‘pretos’ e ‘pardos’ numa só categoria estatística” (Campos, 2013, p. 84). [..] Um dos usos inaugurais dessa forma de categorização agrupada está em “Desigualdade racial no Brasil” (Henriques, 2001).vi “Neste trabalho”, diz R. Henriques, citando Hasenbalg e Silva, “quando nos referimos à população negra ou afrodescendentes no Brasil, estamos considerando o conjunto das populações parda e preta” (2001, nota 4) “.
Citar o texto completo do excerto como:
SZWAKO, José; LAVALLE, Adrian Gurza. “Pretos + pardos”: uma breve história das classificações raciais, movimentos negros e institucionalização simbólica no Brasil. Insight Inteligência, n. 98, 2019. ISSN 1517-6940. Disponível em: https://insightinteligencia.com.br/pretos-pardos-uma-breve-historia-das-classificacoes-raciais-movimentos-negros-e-institucionalizacao-simbolica-no-brasil/https://insightinteligencia.com.br/pretos-pardos-uma-breve-historia-das-classificacoes-raciais-movimentos-negros-e-institucionalizacao-simbolica-no-brasil/. Acesso em: 16 set. 2025.
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