20 de julho de 2024

A guerra dos petroglifos

Uma inesperada, espraiada e midiática “guerra dos petroglifos” se estabeleceu, não apenas em Manaus. O assunto base está na mídia internacional.

Comentando aqui no blog e reproduzindo nas minhas redes, pois como não tem muito alcance, espero que não tenha também as reações ora indignadas e mesmo agressivas, ora de apoio, ora de reprimenda, que costumam rolar nas redes e caixas de comentários.

Aliás os registros aqui não são para consumo imediato. São mais do tipo “escrita de si”, algo para ser lido talvez acidentalmente no futuro, quem sabe após resgate por “arqueologia digital” uma provável ferramenta historiográfica a surgir.

Voltando ao assunto. Já são mais de 40 referências em uma simples busca no Google, ou seja, sites, matérias jornalísticas, tirando as redes sociais. Parte apenas trata do aparecimento das figuras milenares gravadas nas pedras, por conta da vazante das águas do Rio Negro, parte é em função de episódio de intervenção não autorizada pelo Patrimônio Histórico, mas também declaradamente não dolosa para registro de figura, com técnicas porém questionadas.

Com pessoas queridas tanto em uma posição quanto outra, não quero tomar partido, mas observar meus próprios estranhamentos com a repercussão.

Primeiro que “a emenda ficou pior que o soneto”, virou caso de polícia, e outros órgãos, porém mais no estilo “mostrando serviço” que útil. E para quem fala em “respeito e sagrado”, essa imagem que ilustra o texto, de uma carinha cercada de signos ao estilo policialesco sensacionalista de apreensão de provas de crime, vai totalmente no sentido contrário… . Talvez inclusive sugira o ridículo.

Outro ponto são as “apropriações”. Parece que as figuras antigas não são bens culturais da união segundo a letra fria da lei, mas “propriedade” de grupos diversos categorizados, por formação, envolvimento direto ou não, por origem étnica ou afinidades anteriores. Sendo assim, a disputa de narrativas vai longe.

Interessante notar porém, que não há  desconsideração do valor histórico, antropológico, arqueológico e cultural do conjunto por ninguém. Nisso todo mundo concorda. Talvez exceto os mais perigosos, os que realmente tendem a vandalizar o patrimônio, por ignorância, acidente ou mero “espírito de porco”, esses não são, nem serão vistos, questionados ou impedidos.

Outro ponto polêmico é a flexibilidade de visões sobre a mesma coisa. Até dias atrás, o que se falava era em “ateliê”, “oficina” e até mesmo “escolinha” de ferramentas, algo do modo prático de vida dos ocupantes de antanho, mas rapidamente “o sagrado” entrou em campo.

Acredito que em uma premissa mais filosófica e idealizante que literal ou referencial. Já que mesmo os experts não “cravaram” definitivamente do que se tratava o sítio e sua intencionalidade. Imagino que tampouco haja tradição ou reivindicação histórica cultural originária local e definida, que leve à esse sentimento e entendimento.

Até porque, segundo os cronistas da exploração e invasão eurocolonial, a região da hoje Manaus era desde muito antes densamente ocupada por vários povos distintos em cultura, hábitos e tecnologias. A qual deles pertencia o conjunto? Quem são de fato os remanescentes que podem legítimamente afirmar e reivindicar a suposta “sacralidade” envolvida? Voltamos à antiga e imaginava superada premissa do “índio genérico” ?

Talvez, e estou usando muito essa palavra, o que tenhamos na verdade seja um conjunto de “intervenções” questionáveis as mais diversas, simbólicas e em boa parte neoativistas. Esclarecendo que “neoativismo” não se atribui por idade ou tempo de ativismo, mas forma. Em que impera agressividade, superficialidade no conhecimento de causa, assertividade egocentrica, identitarismo não pragmático e “cancelamentos à queima-roupa”.

Último ponto. A considerar justo e razoável o santuarismo radical e “sentimento difuso” de respeito e não perturbação ao passado e sagrado ancestral, seria razoável também considerar a eliminação da própria arqueologia. Visto que não há muita lógica em não considerar “perturbação” todas as intervenções, seja qual for o motivo e abordagens. Haveria uma “concessão especial dos ancestrais” aos arqueólogos, aficcionados leigos, fotógrafos, visitantes guiados de sítios e repositórios de achados mundo afora?

Melhor que as águas voltem logo e literalmente afoguem as tretas por mais uns tempos, uns 10 ou 120 anos conforme o ciclo aparente.

Enfim, “pensamentos com meus botões”, que espero que não entrem em análise nessa época de apressadas e assertivas sentenças no “tribunal das redes”.

 

 

 

 

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