12 de abril de 2024

Primeiro, entender que a manifestação cultural de que mais se orgulha o amazonense, não é originária do Amazonas, tampouco vem de uma “tradição dos povos indígenas” ou é uma “autogênese cabocla”, parintinense e a sua “mais perfeita tradução”.

A brincadeira de boi amazônica vem do Maranhão, uma manifestação popular essencialmente negra, em cujo auto, há a representação dos três grupos fundantes da brasilidade, o indígena, o branco e o negro, e das relações históricas e culturais entre esses grupos.

Em algum ponto da evolução do Boi-Bumbá (não do bumba-meu-boi) alguém resolveu definir a festa como mais que “nativista” um tipo de “manifestação nativa”, leia-se indígena, quando muito “cabocla”, no extremo como “genuína e exclusivamente parintinense”.

Uma coisa problemática do ponto de vista histórico, factual e mesmo antropológico. O fato da temática indígena ter ganhado grande proporção na festa, não significa em absoluto que o Boi seja “manifestação indígena”, tampouco o “caboclo” é uma uma “entidade branco-indígena”, ele é uma FIGURA REGIONAL CALDEADA justamente dessas matrizes fundantes de ocupação do espaço amazônico, o indígena, o branco e o negro.

Portanto, por mais que seja centenária a vontade de eliminar o negro da equação, isso não é possível… pois ele está lá no Pai Francisco e Mãe Catirina, está lá na cadência legítima da batucada, aliás está até nos tambores, que ao contrário da percussão indígena tradicional de troncos de árvores, é de membranofones (couros) uma tecnologia nitidamente afro na cultura amazônica (incluindo o amazônico Maranhão).

Tudo isso dito, é importante então dizer que representar TODAS as raízes do povo na festa do Boi-Bumbá é uma coisa natural e bem-vinda. PORÉM é preciso antes de tudo RESPEITO e COERÊNCIA ao se fazer isso, o que nem sempre tem ocorrido.

Em outras palavras “NÃO VALE TUDO”, licença poética ou artística tem que considerar que há muitas coisas “problemáticas” ao se fazer sem os devidos cuidados e estudos.

Louvável as introduções e mudanças inclusivas e afirmativas, mas sem o cuidado devido, podem virar “tiros pela culatra”. Não vou me alongar. Mas não posso deixar de dizer, apesar de muita gente já ter explicado o erro magistralmente (como a Luciana Santos ), que essa “sinhazinha de Oxum” foi como diz o caboclo “prá acabá” …

Ao contrário do que tem gente dizendo, isso não foi nem “apropriação cultural”, antes fosse, foi uma “impropriedade estrutural”.

Sobre o autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *