12 de abril de 2024

Da pessoa de bens e do bom cidadão às execráveis “pessoas de bem”

Montagem “pessoas de bem”

As aparentes semelhanças mas inegáveis diferenças conceituais e empregos históricos e culturais dos termos merecem uma reflexão.

A ideia/expressão que ocorre com variações em várias línguas não são “sinônimos perfeitos”, principalmente quando está em questão a ideia de pessoa x cidadão.

Quando falamos em cidadão estamos falando de um sujeito de direitos e de compreensão política que por sua vez não necessariamente se iguala à “pessoa”, “popular” ou “pessoa do povo”.

Até mesmo a ideia de “povo”, um grupo que se vê com características étnicas e éticas comuns e de “população”, o agrupamento de pessoas em uma abrangência territorial e não necessariamente com características étnicas, éticas e materialidades comuns.

Retroagindo à noção de democracia e à aplicação no país que se coloca não apenas como independente mas um império sob monarquia moderna, ou seja constitucional e com alguma participação do “povo”.

Fica claro o que se entendia por isso, caso da tentativa de primeira constituição brasileira, a conhecida “Constituição da mandioca”, que atrelava o direto dessa participação “cidadã”, onde aos deputados para se candidatar tinham que provar uma renda mínima de 500 alqueires de mandioca e aos simples eleitor uma renda de 250 alqueires… .

Difícil descolar a ideia de sujeito de plenos direitos ou cidadania ao fato de ser uma “pessoa de bens”, excluidas as demais pessoas, o voto censitário com outros critérios e direitos privilegiados outros, seguiram não apenas por todo o período imperial, mas avançando na República de inspiração inclusive positivista.

Vale lembrar que a ideia de  “bom cidadão” (Good Citizen) para além do cenário brasileiro tem ao menos duas leituras distintas, uma é a elitista norte-americana que reservava a “qualidade” aos que eram compatíveis com as premissas de supremacia branca da Klu Klux Klan, não por coincidência também altamente relacionada com o fetiche por armas…, a outra em sentido contrário introduzida na influência e espírito das nações unidas e dos Direitos Humanos.

Já a nefasta “pessoa de bem”  no contexto brasileiro é o resultado da mescla da “pessoa de bens” e do “bom cidadão” no sentido supremacista ao estilo KKK porém com um flexibilização brazuca ao estilo do “mito da democracia racial”, isto é, admitindo ou fingindo admitir em suas fileiras, pobres e não-brancos úteis para forjar uma massa de manobra auxiliar que na verdade não se beneficia das reais vantagens da hegemonia, mas acredita que poderá ao menos se distanciar do lado estigmatizado da sociedade. Uma ilusão de que o “nós” dos que por falácias morais de superioridades e discriminação contra “os outros”, os marginalizados, os inclui, quando na verdade apenas os tolera por conveniência e utilidade.

A “pessoa de bem” é uma das piores invenções dos últimos tempos, pelos repetidos e conhecidos casos de falta de humanidade, falta de empatia e sobra de hipocrisia. Também e explorada no discurso político, para “pilhar” os sentimentos mais repugnantes das pessoas, transformando essa indignação e perspectiva hipócrita e falseada de “direitos” e “oposição ao mal” em votos e apoios.

Também não há como confundir “pessoa do bem” com os que  reivindicam serem “pessoas de bem” ou o aplicam à outrem.

 

 

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