20 de maio de 2022

O METARRACISMO NÃO DÁ SOSSEGO, QUEREM VER O NEGRO ACORRENTADO E EM SUPLÍCIO AD ETERNUM, VEZ DA ANASTÁCIA

Depois da mancada dos souvenirs de escravos acorrentados à venda no aeroporto de Salvador e denunciados, veio a “desculpa esfarrapada” de que seriam imagens de “pretos velhos”, entidades em religiões de matrizes africanas. Uma legião de METARRACISTAS acorreu em apoio.

O argumento “furado” era de que as correntes seriam símbolos do martírio das “iluminadas entidades” ( ôoo gente cínica…) comparando aos santos católicos ou outros mártires heróicos. Ocorre que basta uma olhada no dicionário para ver que “pretos velhos” não entram no conceito de mártir, tampouco assim aparecem nas descrições das entidades, a “elevação” na cosmovisão africana e afrobrasileira se dá por outros critérios.

 

Além disso qualquer pessoa com alguma intimidade com a Umbanda, onde principalmente são cultuados os “pretos velhos” sabe que as imagens de “pretos velhos” e incorporações não são representadas acorrentadas (e se tiver é o que no santo se diz “marmotagem”, não é descartada alguma invencionice do tipo já que até “preto velho branco” já apareceu… ).

Nem o argumento de que seriam “pretos velhos” durou muito já que quem denunciou, não sendo “besta nem nada”, fotografou a vitrine no aeroporto… “Escravos R$ 99,90”. A “casa caiu” aparentemente de vez.

Insistentes porém, alguns seguiram “Escravos acorrentados OK” mas apelando agora para a “liberdade artística” e que “não se deveria esconder a História” ou ainda “Lembrar para não esquecer a atrocidade da escravidão” ( de novo, CÍNICOS !). Foi só perguntar se repetiriam os argumentos se os souvenirs fossem “lembranças da Alemanha ou de Israel” com miniaturas de judeus em uniformes listrados em campos de concentração e câmaras de gás . Silêncio ensurdecedor, eles sabem que não podem “zoar” com o psiquismo coletivo dos Judeus, até porque ao contrário de desrespeitar a negritude, isso vai com certeza ter enorme reação e consequências práticas e caras… .

Como o argumento “artístico/histórico” também “não colou” partiram para uma mártir negra, Anastácia, a escravizada famosa, conhecida pela imagem de uma negra em máscara de Flandres… .

Ocorre que a tal representação de Anastácia nem mesmo se referiu originalmente à ela, que foi fruto de um estupro da mãe por um branco de olhos azuis em 1740 quando chegou do Congo, ela nasceu no ano seguinte. O ilustrador Etienne Arago, só nasceu 50 anos depois na França, esteve no Brasil na década de 20 do XIX, foi embora e só produziu a obra em 1839, a imagem que se atribui ser de Anastácia, na verdade era de um castigo comum na época e aplicado a escravizados em toda América latina e Caribe, por onde também viajou, não especificamente uma representação da própria Anastácia ou em função dela. A confusão começou em uma exposição da obra do artista já em 1968 na igreja do Rosário, aonde a comunidade perpetuava a história da escravizada martirizada, com a ilustração exposta a imagem passou a ser atribuída à ela. Em 1970 Anastácia passou a ser cultuada também na Umbanda sob a mesma imagem (repetindo, que não era dela).

De lá para cá o processo de conscientização negra evoluiu e a imagética da escravidão que se aceitava quase plácidamente passou a ser reflexionada e problematizada. Resultado a própria religiosidade afrobrasileira passou a questionar se sua ancestral elevada deveria continuar a ter uma representação de castigo e escravização eternamente. Primeiro alguns a representaram sem a máscara mas ainda citando como “escrava”.

Hoje a redenção de Anastácia vem do ativismo negro e se espraia para a própria religiosidade. Afinal se nem a imagem atribuída à ela há 50 anos era realmente dela, e tampouco espiritos elevados permanecem em suplício, qual o motivo para continuar representando assim . Se for para ter imagem representativa que ao menos acompanhe a nova consciência…

#pretovelhonaotemcorrente #almaslivres #anastacialivre

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