6 de dezembro de 2021
Reprodução do Instagram pessoal

No embalo da CPI da Covid surgiu uma nova “musa” nacional, ou melhor amplificou-se em muito uma condição ou vocação de certo pré-existente mas em escala muito menor.

No caso o termo musa se aplica bem em seu sentido de ser feminino algo “divinal” filha de Zeus e Mnemosis, eram nove as musas inspiradoras e matronas das artes e ciências (e ela é uma cientista e também artista) mas também no sentido coloquial de mulher bela e cativante.

O texto, não tem como objetivo fazer loas à cientista, que “lavou a alma” do país (bom, ao menos da maior parte dele) ao com desenvoltura abalar os alicerces do negacionismo e anticientíficismo do governo federal e apoiadores. Escrevo ao perceber um estranho silêncio generalizado sobre a identitarização racial da Dra. Luana, que como já dito, além de cientista de alto nível, também tem talentos artísticos e midiáticos. Não que seja interessante a racialização de tudo e todos. Com pessoas brancas por exemplo esse é um ponto tocado apenas quando acontece algo que clame claramente uma questão de discriminação ou privilégio em relação a outros, não é o caso de pessoas não-brancas que em tudo e por tudo dificilmente escapam de alguma observação nesse sentido, mesmo gratuita.

Pois bem, é estranho que (ao menos eu não vi) não tenham tocado no assunto, nem para “colar afirmativamente” e reinvidicar nela uma negritude inspiradora, tampouco por ao contrário agregar “desqualificação velada” pela não-brancura, o que pode ter sido substituído cinicamente pelo tratamento de “cantora” adjetivado de “frustrada” feito por alguns obviamente negacionistas descontentes e não de Doutora…

Que a Dra. não é branca é óbvio, a “marca” como diria Oracy Nogueira está lá bem colocada em traços, como lábios, cabelo, tom de pele…, mas também na pegada artística, um tanto “black” em um sobrevôo mais atento. Então qual o motivo do silêncio ? Um mistério…

Em uma visita ao seu Instagram, que decididamente é de “popstar” mesmo que incluindo toda a verve científica, se apura que ela apesar de não “levantar bandeira”, admite a sua origem negra, e até com um certo “proud”, mas aí vai por um caminho de “coluna do meio”, tipo “nem branca nem negra” seguida de uma ode à miscigenação, referências comemorativas ao 13 de maio, loas à Princesa Isabel, enfim tudo que se enquadra em um perfil alheio ao de consciência negra, mais alinhado com o do conservadorismo metarracista (que se diz antirracista, mas na verdade vai contra as premissas e interesses do verdadeiro antirracismo)

Reprodução do Instagram

A nossa problematização passa longe de querer cobrar de A ou B uma pertença identitária compulsória, mas questionar o porque a heteroidentificação silencia em alguns casos, assim como a autodeclaração busca uma providencial “coluna do meio”, enquanto em outros casos a pouca marca não impede a autoidentificação enquanto pessoa negra e não como miscigenada.

Creio que são três os principais problemas, o primeiro uma tentativa consciente ou inconsciente de fugir da estigmatização por ser negro(a), o segundo uma introjetada ideia do dito “mito da democracia racial” combinado com um ideal romântico da miscigenação, não percebida como grandemente fomentado por uma antiga política nacional de branqueamento da nação, e terceiro e por fim, pelo desconhecimento dos termos e conceitos que definem as identidades. Por exemplo, a ideia equivocada que negro e preto são sinônimos (quando não são) e que pardo é uma identidade intermediária e independente da negra.

Por economia textual, não vou detalhar bem aqui esses termos e conceitos, remetendo à um outro texto meu específico Entendendo finalmente a diferença de preto para negro, o que vou sucintamente marcar aqui é que PRETO(A) é quem parece um africano não miscigenado ou de pouca miscigenação (o meu caso, que em África só era notado como “gringo” quando abria a boca para falar) NEGRO(A) é quem tem ascendentes trazidos no tráfico negreiro transatlântico, ou seja, escravizados. Portanto ser negro(a) não é uma questão apenas de marca mas principalmente de ORIGEM, é negro(a) quem descende de negros (independente de ser ou parecer miscigenado).

A questão da miscigenação

A Antropologia, mas antes a prática social, se rende ao chamado conceito ou “Lei de Marvin Harris” antropólogo norte-americano falecido em 2002, que pesquisando povos de todo o mundo identificou que invariavelmente o produto de miscigenação étnico-racial é socialmente alocado no lado menos hegemônico e socialmente valorizado de sua múltipla origem, a chamada HIPODESCENDENCIA. Ou seja, no caso uma pessoa não-branca, jamais é alocada socialmente enquanto branca ou mesmo “mista”, exceto caso ela não possua qualquer marca fenotípica que denuncie parte de sua origem estigmatizada e quando o racismo não é o chamado de origem, aonde basta a desconfiança de uma origem estigmatizada para que a pessoa sofra o preconceito e discriminação. No Brasil o racismo é de marca (aparência) muito mais que de origem. Não sei o que a Dra. apurou sobre isso de sua experiência fora do país, mas normalmente é sempre uma “surpresa” e abalo das percepções brazucas de autobrancura ou “meiabrancura”.

Outro ponto é que sendo sabido que biologicamente não há diferentes raças entre humanos, os quais formam uma espécie única, o homo sapiens, a ideia de “mestiço” ou “mistura” da mesma coisa com a mesma coisa é uma falácia teórica.

Tenho certeza que a agora nacionalmente aclamada cientista, à luz da ciência, mesmo que não sejam as do seu metier, haveria de concordar que a ideia de “nem black nem white” é anticientífica, é mais ideológica, vinda de uma política nacional de branqueamento eugenica e escamoteamento de nossas desigualdades sociais de origem racial e psicológico de evitamento da dor da estigmatização. Talvez diante da base científica para reinvidicar sua negritude até se sentiria feliz por poder fazer algo que na alma de artista até já lhe tenha passado.

Aliás, o texto é uma carta aberta, não é pessoalmente direcionado, é para reflexão pública e aproveitamento da informação por quem se sentir nesse “limbo”.

2 thoughts on “Luana Araújo, negritude e silêncios

  1. Bom, gostei muito do texto e quero fazer aqui uma observação que me lembrou do livro: A INVENÇÃO DAS RAÇAS. A matemática dominante que se fazia época da escravidão era a seguinte: filho de branco com branco é
    Igual a branco; filho de branco com índio era índio; filho de branco com negro era negro. O branco sempre correu pelo caminho da “pureza”, é o mestiço com tom de pele mais claro, hoje é mais aceito, passa mais despercebido ao sofrimento daqueles que possuem o tom de pele mais escuro.

    1. Essa “matemática” é justamente a hipodescendencia, e é universal, funciona não apenas “racialmente” mas também étnicamente, por isso sempre foram considerados automaticamente judeus os filhos de mães judias, não só de pais, pois poderiam ser “bastardos de guerra ou andanças”, entre os subgrupos africanos, europeus, árabes, asiáticos e nativos americanos é a mesma coisa, não tem “coluna do meio” tipo “meio sunita meio xiita). E sim, o miscigenado se beneficia no racismo de marca como o brasileiro, mas nem tanto…, os indicadores sociais de pretos e pardos são muito próximos entre si e igualmente distantes dos dos brancos. 🤷🏿‍♂️

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