6 de dezembro de 2021

Um dos problemas do neoativismo negro é a ideia romantizada e irreal de que somos africanos ou afrakanos como preferem alguns. A verdade é que nós diaspóricos produto do tráfico negreiro transatlântico temos raiz, mas africanos não somos, e essa é uma das primeiras coisas que descobrimos ao ter a oportunidade de viver um tempo por lá (principalmente os obviamente miscigenados que aqui se chamam de pretos e lá destoam na paisagem, já que a miscigenação por lá comparada com as diaspóricas foi mínima)… .

A história e os séculos nos transformaram em “outra coisa”, por mais que pelas regras do racismo estrutural até sejamos vistos como estrangeiros em nossa própria terra, pelo que paradoxalmente tanto racistas quanto “afrocentristas” ou “panafricanistas desse lado do Atlântico” concordam e lutam.

É até compreensível a busca por uma identidade que tenta reafirmar essa ligação ancestral por meio do viés cultural, estético etc, mas tem gente que exagera… . Os que tem religiosidade de matrizes africanas, tem o seu nome afro interno, que as vezes também tem uso social que remete à tradições do continente africano, outros adotam apelidos ou nomes fakes que nada tem à ver com a sua real origem ( étnicamente falando, em termos familiares ou mesmo de regiões africanas ancestrais) mas lhes proporcionam um sentimento de insurgência anticolonialista e pertencimento afro, até aí tudo bem.

A grande questão é quando a utopia vai além do razoável, e quando digo razoável é entender que gostando ou não, tanto nós quanto muitas gerações da nossa ancestralidade fomos formados nesse caldo de cultura cheio de expropriações e apropriações do novo mundo. Eu até admirava no épico filme “Raízes” baseado no livro de Alex Hailey, quando o escravizado Kunta Kintê obstinadamente tentava preservar o próprio nome e identidade, não aceitando o “Toby” do colonizador, mas ele era um verdadeiro africano recém retirado de sua cultura, o que é bem diferente de alguém que não tem um africano na família a provavelmente pelo menos 7 gerações, das quais a esmagadora maioria mal tem referência das 3 anteriores a si mesmo… .

Somos afro-brasileiros com tudo que isso significa, nada vai mudar isso, nem um nome africano arbitrário num pedaço de papel…, precisamos é de respeito e justa integração social, identidade até faz parte, mas não é a única nem mais útil demanda.

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