6 de dezembro de 2021

Ifá, filosofia, tecnologia ou religião ?

Essa é uma discussão recorrente e não é exclusiva de uma ou outra tradição (a africana ou a afrocubana) e chega à reflexão acadêmica de estudiosos das matrizes africanas, com posição favorável à autodefinição como “filosofia assistida por tecnologia ancestral de comunicação cósmica”. Enquanto iniciado em primeira mão, portanto caminhante no aprendizado básico sobre Ifá, mas principalmente como acadêmico, não limito a visão a tal, acato, mas vejo possibilidade outra.

Em história por exemplo, trabalhamos com a categoria das fontes e a do próprio pesquisador, que não escreve para o passado, mas sim para o presente, onde estão seus questionamentos e leitores, e quiças o futuro. Sendo assim, não necessariamente o fato de no passado uma categoria ter nome ou conceito um pouco diferente do que se identifica olhando a partir de hoje, obriga a trabalhar somente com a categoria e terminologia das fontes, ou seja daquela época. O trabalho se dá com a categoria da época ao nível das fontes, mas a análise e reflexão pode e deve abrigar categoria hoje disponível e melhor para a compreensão problemática.

Muito embora Ifá possa ser tudo que se coloca no enunciado, a depender do nível em que se está envolvido ou comprometido com ele, vamos ao “popular”.

Se uma pessoa hoje vê algo em que há presença de:

Divindade(s)
Crença/culto
Noção de sagrado
Sacerdócio
Seguidores
Mística
Congregação/Irmandade

Ela identifica como o quê ??? RELIGIÃO, pura e simplesmente. Em primeiro momento não faz diferença se o foco maior é no culto ao divino, nas formas cósmicas do divino, na filosofia aplicada à vida ou nos detalhes teológicos ou tecnológicos.

Se no meio yorubá original não se entendia culto e vivências com exatamente o mesmo conceito eurocentrico de religião, hoje, no caldeamento cultural em que vivemos, é muito difícil deslocar Ifá de uma categorização não apenas de tradição, mas de “tradição religiosa”.

Ifá não tem “mestres” como em uma mera filosofia, tampouco meros “operadores” de tecnologia oracular, e sim sacerdotes…, e esses últimos só existem em religiões, portanto… 🤷🏿‍♂️

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