27 de novembro de 2021

Debate necessário. Eu particularmente entendo que a reapresentação antropomórfica das divindades africanas já é por si fruto do processo de apropriação da cultura europeia, em África não era assim e mesmo hoje nas religiões de matrizes africanas (desconto para a Umbanda que é essencialmente sincrética) nos assentamentos religiosos a divindade é representada por algo da natureza, um otá (pedra) por exemplo. Porém como nossa cultura envolvente de maneira tradicional faz representação “santeira” do sagrado, somado ao antigamente necessário sincretismo, acho válido para fins não estritamente litúrgicos.

É o caso das representações simbólicas afirmativas (como as estátuas públicas, estatuetas domésticas, representações em moda e midiáticas) a representação antropomórfica ligada à origem, ou seja, fenótipicamente africanas, até porque os itans/patakins (narrativas sobre as divindades) colocam essas forças na forma humana e contextos africanos).

Sempre digo que a apropriação cultural é normal em uma sociedade caldeada, o que não é bom é a EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, e a “Iemanjá Ivete Sangalo” (com todo respeito à artista, inclusive adepta da matriz africana) é uma representação oriunda do hoje desnecessário sincretismo, mas também de um processo de EXPROPRIAÇÃO CULTURAL, em que ocorre a retirada de contexto da estética afro e prol de um branqueamento eurocentrado. Sou negro e filho de Yemanjá, para mim é importante que uma divindade africana seja representada em seu contexto original e não de forma expropriada.

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