6 de dezembro de 2021

Machado de Assis, o grande escritor brasileiro era um afrodescendente. Mesmo sendo um fato já notório, constante da sua biografia, ainda há gente “lutando” por um Machado de Assis branco, inconformada com a representação mais realista que se anda fazendo dele.

Essa “briga” por um Machado branco só se pode mirar sob título de uma reação que visa prorrogar a ideologia de branqueamento e embranquecimento não apenas de grandes vultos da história brasilera, mas também da própria população… como se pode depreender deste trecho de texto meu de 2006…

Portanto essa posição é hoje indefensável, primeiro porque é de amplo conhecimento dos historiadores e estudiosos da temática étnico racial, a tradicional prática do “retrato americano”, técnica de pintura que visava “branquear” cor e traços de não brancos de fins do XIX. Segundo porque há fotos originais em que é perceptível que a tez de Machado não era branca. Terceiro porque há registros escritos sobre sua condição de “mulato”, bem como com sua descrição física, a exemplo:
“Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria chamado Machado de Assis de mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava; quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego” (Joaquim Nabuco, em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis).

O texto é claro e não dá margens para outra interpretação, ao iniciar com “Mulato, ele era de fato, um grego”, o que Nabuco está colocando é uma realidade (Mulato) contra a perspectiva moral que tinha de Machadot (equivale ao “classico negro de alma branca) . Em outro trecho diz “PARA MIM era branco e creio que por tal SE TORNAVA”, ou seja, novamente admite uma contradição entre o físico e a percepção que tinha do “lugar social” de Machado. Ao dizer “EU PELO MENOS, só via nele o grego” novamente reforça ser uma visão pessoal, que pela simples colocação deixa claro não ser a única possível nem unânime…

Ou ainda

Ou ainda

Em 30 de setembro de 1933, o escritor Humberto de Campos, ao escrever um artigo para o ” Diário de Notícias”, traçou o seguinte perfil do colega Machado de Assis, a maior glória da literatura nacional de todos os tempos:
“Era miúdo de figura, mulato de sangue, escuro de pele, e usava uma barba curta e de tonalidade confusa, que dava ares de antigo escravo brasileiro, filho do senhor e criado na casa de boa família. Era gago de boca, límpido de espírito e manso de coração. E tornara-se pelo estudo e pelo trabalho o mais belo nome, e a glória pura e mais legítima, das letras nacionais”.

Uma foto pouco conhecida, publicada na revista argentina “Caras y Caretas” de 1908 mostra um Machado de traços notadamente afrodescendentes.

Igualmente, foto sem retoques e de conhecimento público desde 1957, não deixa dúvidas sobre a tez escura de Machado…

Portanto, não há nada de “fantasioso” em devolver à representação de Machado uma mais realista aparência.

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