27 de novembro de 2021

Cláudia-arrastada

A frase/título retirada da música  “TODO CAMBURÃO TEM UM POUCO DE NAVIO NEGREIRO” com  LETRA  de  MARCELO YUKA,  sucesso da banda O RAPPA, se demonstra mais que uma crítica em forma de poesia, é de uma atualidade/literalidade cruel e absurda quando nos chegam as notícias e imagens do caso da dona de casa e auxiliar de limpeza Cláudia da Silva Ferreira  (38 anos e negra), baleada em confronto entre policiais e supostos criminosos  no Rio de Janeiro (vide mais detalhes) quando saía de casa para comprar pão,  depois de baleada foi jogada no camburão de uma viatura (a mídia e o Comando da PMERJ tem usado eufemisticamente o termo “porta-malas” da viatura) à guisa de socorro (socorro esse que deveria ter sido feito por ambulância, não como foi feito), como se não fosse já trágico o suficiente, a porta traseira do camburão se abriu durante o deslocamento até o hospital, tendo o corpo desacordado de Cláudia, caído e ficado preso por parte da roupa da mesma, sendo arrastada pelo asfalto por cerca de 250 metros, ferindo ainda mais a dona de casa, que segundo o hospital já chegou morta.

Para quem ainda não entendeu o título da postagem nem viu qualquer relação entre a fatalidade e práticas racistas, algumas observações :

1- Nos navios negreiros o “transporte” era feito de forma “organizadamente desumana”, o número de vidas perdidas nas travessias pela simples forma das condições como o transporte e as vilanias durante o mesmo se davam, era imenso.

2- O procedimento policial descuidado que causou o baleamento de Cláudia, em outro local que não uma comunidade quase que virtualmente toda habitada por pessoas negras (e não coincidentemente também pobres), seria muitíssimo provavelmente outro… .

3- O procedimento policial de jogar sem maiores cuidados uma vítima no camburão mesmo a guisa de “socorro mais rápido”, é extremamente provável que não ocorreria em situação “diferente”, mesmo com o risco de morte aumentado, a ambulância teria sido a escolha… (aliás não seria nem caso de escolha…, o que dizem os procedimentos policiais determinados para socorro de “alvos colaterais” ??? ).

4- O “cuidado” com a vítima socorrida era “tanto”, que o camburão se abriu, a vítima caiu, foi arrastada por um quarto de quilômetro em via urbana e simplesmente os policiais não perceberam (ou perceberam muitíssimo tarde), isso aconteceria em uma situação em que vítima tivesse um “perfil” diferente ? .

Por fim um trecho da poesia  Navio Negreiro, de Castro Alves :

“Era um sonho dantesco… o tombadilho 
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros… estalar de açoite… 
Legiões de homens negros como a noite, 
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas 
Magras crianças, cujas bocas pretas 
Rega o sangue das mães: 
Outras moças, mas nuas e espantadas, 
No turbilhão de espectros arrastadas, 
Em ânsia e mágoa vãs! “

Os reflexos de toda a saga trágica que foi o tráfico negreiro transatlântico e toda a História da escravidão e sua abolição mal feita, fazem com que ainda hoje se possa ver que de fato “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”.

Enfim, essas coisas que envolvem a questão, não são tão diretas e declaradas como imaginam os que não são familiarizados com essa realidade ou pelo menos com a discussão temática sobre ele, tem que saber “ler nas entrelinhas”, “amarrar as pontas” ou seja, fazer as conexões certas, a partir de informações e conhecimentos mais elaborados sobre a questão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *