26 de novembro de 2021

Os “chifres” do Sr. Presidente e a poligamia

Zuma e esposa


Presidente Zuma e suas esposas, a primeira da esquerda para direita é Nompumelelo Ntuli

Mais do que a abertura da copa do mundo de futebol 2010, na África do Sul, as atenções por lá e agora por aqui, tem sido direcionadas para a notícia do adultério praticado com um dos seguranças presidenciais por uma das primeiras-damas do país (Nompumelelo Ntuli) a segunda das 3 atuais esposas do Presidente sul-africano Jacob Zuma de 67 anos). Que inclusive teria engravidado do guarda-costas Phinda Thomo (que se suicidou após a história toda vir a tona).

Zuma que é do grupo étnico (tribo) Zulu, é um ferrenho defensor dos costumes tradicionais dos Zulus, entre eles a poligamia; casou 5 vezes e tem cerca de 20 filhos reconhecidos; divorciou-se de uma das esposas e ficou viúvo de outra (que se suicidou após 24 anos de casamento). Além das 3 atuais esposas Zuma tem também uma “noiva” com quem tem anunciado pretensão de casamento para breve.

Antes de qualquer coisa acho justo lembrar que “chifre” é uma coisa extremamente democrática, atinge poderosos, pobres, poligamos, monogâmicos, pretos, brancos, asiáticos, indígenas, gente de todos os credos,, heterosexuais, homosexuais, jovens, velhos, bonitos, feios e até quem não é casado… . Portanto nada de querer fazer a automática ligação de poligamia ou de amantismo com “bem merecidos chifres”…, como dizem os norte-americanos “Shit happens…”

Ao invés de apenas repercutir o caso ou fazer comentário sobre a situação específica, achei que seria uma ótima oportunidade para falar sobre uma questão cultural não apenas africana, mas histórica e mundial, que é a poligamia (e que sempre achei um assunto muito interessante…).

A poligamia, que é a composição familiar tipicamente patriarcal a partir do casamento de um homem com várias mulheres, é coisa natural e antiga, remonta à mais longínqua antiguidade e está (ou esteve) presente na base de todos os povos e culturas do mundo.

Quando se fala em poligamia, a primeira imagem que vem à mente, são os misteriosos e vigiados haréns de mandatários árabes, mas na realidade essa prática de muitas esposas e concubinas reais ocorreu em muitos outros povos. Aliás não apenas reis e outros poderosos praticavam a “poligamia oficial” , pessoas “comuns” também, mas é certo que para tal, a condição básica sempre foi a capacidade provedora suficiente do homem, ou seja, se poderia ter a quantidade de mulheres e filhos que se aguentasse sustentar… .

Na natureza (entre os mamíferos) a “familia polígama” é o padrão na maioria das espécies. O chamado macho-alfa é o lider do grupo, sendo o único sexualmente ativo naquele grupo familiar, os que quiserem constituir familia própria tem que desafiar e vencer em luta o macho-alfa do próprio grupo ou de outro, tomando então todas as fêmeas para si (The Winner takes All…). O interessante é que as fêmeas não brigam entre si por “exclusividade” e também não aceitam sexualmente outros machos que não o macho-alfa.

Só para lembrar aos que entendem a poligamia como sinônimo de atraso, ou que por motivos “religiosos” e culturais a recriminam, temos nas bases da religiosidade e da cultura ocidental vários exemplos de lideranças e referências morais que eram poligamas :

Na Bíblia: praticamente todos os patriarcas eram polígamos. O Rei Davi era um reconhecido mulherengo e seu filho Salomão (o rei-sábio) tinha mais de 700 esposas e mais 300 concubinas…, isso é fato. Embora muitos tentem justificar através de muitas outras citações, que tal comportamento não era “bem visto” por Deus e deveria ser “convenientemente” substituido pela monogamia.

No oriente: gregos, romanos, hindús, babilônios, persas, árabes, chineses, nipônicos e muitos outros povos praticaram históricamente a poligamia, coisa ainda muito comum em alguns países mesmo não havendo poligamia oficializada. A China por exemplo, com todo o controle estatal exercido e apesar de ter proibido a poligamia no inicio do período comunista, ainda hoje se vê as voltas com casos de poligamia não oficializada mas de fato… .

Na europa pré-cristã: até por volta do primeiro milênio da era cristã (séc. X) era comum a poligamia, que somente a muito custo deixou de ser aberta e oficializada pelos estados recentemente convertidos ao cristianismo.

O islamismo: segunda religião mais professada no mundo (21%) e que hoje não se restringe apenas ao povos árabes e descendentes, mas está espalhada por todo o mundo (segundo as autoridades islâmicas só no Brasil, há mais de 1 milhão de adeptos), admite a poligamia com até 4 esposas.

Cristãos : entre os mesmos a poligamia institucionalizada ou de fato também já foi muito praticada, inclusive houve papas casados (o último papa casado foi Adriano 2º (867 – 872).) que mantinham concubinas. Mesmo sem casamento, a prática de relacionamentos “estáveis e duradouros” com várias mulheres persistiu algum tempo, por exemplo o Papa Alexandre 6º (Rodrigo Bórgia – 1.492 – 1.503), tinha 6 filhos… . Nos EUA, entre os conhecidos Mórmons (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) a prática da poligamia foi natural por mais de 100 anos, tendo sido abolida oficialmente em 1890. Porém ainda hoje grupos dissidentes como a Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, possui na região de UTAH e redondezas, cerca de 40.000 membros que se recusam a abandonar a prática (não oficializada obviamente).

Em várias outras partes do mundo e da história, a poligamia se fez e faz presente. Na África muitas etnias mantém a tradição, na Suazilândia (última monarquia absolutista do mundo, país encravado dentro da África do Sul e fronteiriço com Moçambique) o rei tem mais de 30 esposas (e todo ano há um festival para escolher mais uma…). Nos antigos reinos da região havia desde há muito tempo a figura do “assistente real”, que nada mais era que um “ricardão oficial” que “fazia a manutenção” das esposas que o rei já não visitava mais com frequência, o detalhe é que uma vez atendida pelo assistente, nunca mais a esposa voltava ao leito real, mas continuava esposa… .

É importante frisar que ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a poligamia tem regras rígidas que exigem responsabilidade do homem e tem servido para evitar que mulheres e crianças fiquem desprovidas de direitos e dignidade familiar. No ocidente hipocrita o que se pratica é o AMANTISMO…, que é nada mais nada menos, que o relacionamento de um homem com várias mulheres onde apenas uma é esposa, por vezes constituindo famílias paralelas, mas de forma dissimulada e infâme, mantendo mulheres e filhos ilegítimos na clandestinidade. A lei brasileira por exemplo ampara o filho ilegítimo que tem a paternidade reconhecida legalmente (de forma voluntária ou compulsória), mas não reconhece qualquer direito à concubina de homem já legalmente casado.

Para finalizar, deixo uma recomendação para uma leitura envolvente sobre o tema, um dos meus livros favoritos, o romance da escritora moçambicana Paulina Chiziane : Niketche, uma história de poligamia (tem na livraria Saraiva e dá para comprar pela Internet), é um livro daqueles imperdíveis, que além de desvendar várias facetas do comportamento humano nos faz viajar conhecendo detalhes de outras culturas. ver a resenha em : http://www.irohin.org.br/imp/n10/36.htm

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